Complexo Cultural Gonzagão chega aos 36 anos com estrutura renovada e mantendo viva a tradição do forró sergipano
- Cultura
Conhecido como Casa do Forró Sergipano, espaço passou por duas etapas de revitalização e terá, no futuro, a implantação do Museu do Forró
O Complexo Cultural Gonzagão completa 36 anos nesta quinta-feira, 10. Administrado pelo Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), o equipamento fica no conjunto Augusto Franco, na zona Sul de Aracaju, e chega à data após duas etapas de revitalização concluídas entre 2025 e 2026, que somaram mais de R$ 3,2 milhões. Em breve, o espaço deve receber ainda o Museu do Forró, previsto no Programa Integrado de Desenvolvimento Cultural e Turístico de Sergipe, o Viva-SE.
Criado em 1990 com o nome oficial de Complexo Cultural, Casa de Forró e Barracão Cultural 'O Gonzagão', o equipamento nasceu com a proposta de funcionar como um centro multimeios voltado à realização de eventos culturais, cursos, apresentações de dança, música e folclore, ações de arte-educação e encontros comunitários. O nome é uma homenagem a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, morto no ano anterior. Ao longo das décadas, a vocação inicial se consolidou e o Gonzagão passou a ser reconhecido como uma das principais casas da cultura popular sergipana.
O palco recebeu nomes como Marinês, Clemilda, Dominguinhos e Erivaldo de Carira, além de artistas de diferentes gerações, grupos folclóricos e quadrilhas juninas. Foi também no Gonzagão que a Ópera do Milho, um dos espetáculos mais conhecidos do ciclo junino sergipano, foi encenada pela primeira vez, em 1996. O espaço abriga ainda um dos concursos de quadrilhas juninas mais tradicionais do estado, que anualmente reúne grupos de diferentes municípios.
Para a coordenadora do Gonzagão, Sandra Barbosa, acompanhar essa trajetória também é uma experiência pessoal. Ela frequenta o espaço desde muito jovem e hoje participa da administração do equipamento. "Para mim, é uma honra participar desse momento de homenagem a esse espaço, essa casa de forró que atua desde os anos 1990, com tanta tradição. Tudo que acontece aqui mantém nossa cultura viva. Para a comunidade, assim como aconteceu comigo, o Gonzagão traz muitas memórias afetivas", afirma.
Duas etapas de obras entre 2025 e 2026
A primeira etapa da revitalização foi entregue em 24 de junho de 2025, dia de São João, com investimento de R$ 2,1 milhões. As obras alcançaram a reconstrução do piso do salão, a manutenção do telhado, a recuperação dos sistemas elétrico e hidráulico, o abastecimento de água e o combate a incêndio, a pintura de muros e estruturas metálicas e a instalação de uma nova caixa acústica no palco.
Essa fase trouxe ainda jardins laterais, melhorias na bilheteria e na entrada principal, limpeza especializada dos elementos em pedra e restauração do telhado do espaço Gonzaguinha. As intervenções também alcançaram elementos que fazem parte da memória visual do complexo, como a estátua de Luiz Gonzaga e obras do artista Eurico Luiz.
A paisagem do espaço ganhou novos elementos com o trabalho dos grafiteiros sergipanos Feyk Johny e Korea, autores de painéis inspirados na cultura junina, nos mestres e nos grupos folclóricos de Sergipe.
A segunda etapa foi entregue em 28 de maio de 2026, durante a Salva Junina, com investimento superior a R$ 1,1 milhão. O antigo pavimento de paralelepípedo foi substituído por piso intertravado, novas áreas de permanência foram criadas com bancos e paisagismo e o espaço recebeu quiosques comerciais e novas adequações de acessibilidade.
Somadas, as duas etapas representaram mais de R$ 3,2 milhões em intervenções. A acessibilidade passou a ser pensada para o conjunto do equipamento, com calçadas adaptadas, piso tátil, sinalização de alerta, rampas e banheiros adaptados.
Novos quiosques organizam o comércio no complexo
A revitalização também mudou as condições de trabalho de quem faz do Gonzagão um espaço de renda. Os quiosques, instalados em 2026, inspirados na temática das casas de barro, substituíram pontos comerciais improvisados que funcionavam havia anos no entorno do palco, organizando o atendimento e liberando áreas de circulação para o público.
A mudança foi acompanhada de perto por comerciantes que construíram sua trajetória junto ao equipamento. É o caso de Helena Nascimento, que mantém há mais de duas décadas um ponto no Gonzagão. "O Gonzagão está belíssimo. Os quiosques atenderam a um pedido nosso e deram muito certo. Ficou muito lindo e as vendas estão muito boas. É uma ótima oportunidade para todos que estão trabalhando aqui", conta.
Ciclo junino de 2026 movimentou o espaço renovado
Em 2026, pela primeira vez em sua história, o Gonzagão sediou a Salva Junina, programação que abre oficialmente os festejos juninos de Sergipe e que, desde 2023, vinha sendo realizada no Centro de Criatividade. Em sua quarta edição, a noite reuniu o grupo Peneirou Xerém, as Sanfoneiras de Sergipe, a coroação do Rei e da Rainha do País do Forró, o Barco de Fogo, a Ópera do Milho e as quadrilhas juninas Unidos em Asa Branca e Pioneiros da Roça.
O concurso de quadrilhas também ganhou espaço para crescer. Em 2025, foram 24 grupos habilitados. Já em 2026, o número chegou a 28, com quatro noites classificatórias, duas semifinais e a final realizadas no complexo entre os dias 8 e 15 de junho. A edição foi vencida pela quadrilha Século XX e, pela primeira vez, premiou os oito grupos mais bem colocados. Com as novas áreas de permanência, arquibancadas e quiosques, o público passou a ocupar diferentes pontos do equipamento durante as noites de competição.
A estrutura renovada ampliou as possibilidades de utilização do Gonzagão durante o restante do ano. A proposta original do equipamento, de reunir diferentes expressões culturais, permanece presente em uma estrutura que agora oferece melhores condições para artistas, trabalhadores e visitantes.
Museu do Forró
A história do Gonzagão também está ligada ao que ainda será construído dentro de seus espaços. O Complexo Cultural está entre os equipamentos contemplados na segunda etapa de investimentos do Viva-SE, programa do Governo de Sergipe financiado pelo BNDES por meio do Invest Impacto.
Essa segunda etapa soma R$ 117,8 milhões, dos quais R$ 105,5 milhões são financiados pelo banco e R$ 12,3 milhões correspondem à contrapartida do Estado. Desse total, R$ 54,3 milhões serão destinados à recuperação e à modernização de oito equipamentos culturais em Aracaju, entre eles o Museu do Forró, que será construído no próprio Complexo Cultural Gonzagão. A previsão é que as obras e ações do pacote sejam concluídas até dezembro de 2028.
O futuro museu ocupará uma edificação de aproximadamente 1,5 mil metros quadrados e contará com espaços expositivos, recursos audiovisuais e instalações de acessibilidade. A proposta amplia a função do Gonzagão como espaço de celebração do forró e cria um lugar permanente para preservar, pesquisar e apresentar ao público diferentes dimensões da história do gênero e de sua relação com Sergipe.
Aos 36 anos, o Gonzagão chega a esse novo momento mantendo a característica que fez o equipamento ser conhecido como Casa do Forró Sergipano. O espaço, que já guarda memórias de shows, quadrilhas, espetáculos e encontros da cultura popular, passará a contar também com uma estrutura dedicada à preservação e à difusão da história do forró.
Foto: Julia Rodrigues
